Desafios Culturais e a Qualidade do Dado
O desafio mais frequentemente citado e considerado uma das maiores resistências é a consolidação da cultura do dado. Há uma dificuldade substancial em construir uma cultura da qualidade do dado e reconhecer a importância das informações contidas nos sistemas. É crucial que se estabeleça uma cultura de corresponsabilidade pelo que está sendo armazenado. Essa dificuldade manifesta-se até mesmo entre os responsáveis, pois, em alguns casos, mesmo quem é o “dono do dado” tem dúvida sobre a informação que consta ali.
Existe também uma carência de entendimento de que a análise de dados deve ser uma construção contínua. Há o risco de a demanda das áreas “esfriar” após a necessidade pontual ser atendida. Além de demonstrar a informação, é crucial que os usuários saibam entender corretamente o que está sendo passado. Mesmo com milhares de usuários acessando painéis, eles não necessariamente sabem como mexer, como analisar, como extrair a informação para a tomada de decisão.
Governança, Sistemas e Complexidade Legal
A estruturação técnica e normativa é um ponto crítico para garantir a confiabilidade dos dados. O principal desafio em muitas unidades é a governança de dados, que exige a estruturação de processos, procedimentos e políticas para a coleta, armazenamento, uso e compartilhamento dos dados.
Há uma dificuldade em avançar internamente no acesso aos dados, pois os sistemas corporativos não são preparados para fornecer dados que permitam a criação de indicadores. Isso exige negociações constantes e enfrenta questões políticas. A falta de interoperabilidade dos sistemas é outra dificuldade, já que alguns temas ainda não estão centralizados ou, quando estão, não são preenchidos por todas as pessoas. A qualificação e curadoria dos dados também são essenciais, atuando em diferentes níveis, como docente, secretarias de pós-graduação e pró-reitorias.
A gestão de dados é ainda afetada por questões legais, como a LGPD, que é vista como “complicadíssima”. O representante da USP, Fátima, destaca que: “Nossos sistemas corporativos não são preparados por fornecer dados para que a gente possa fazer indicadores”, e que lidar com a LGTB [LGPD] “é uma questão complicadíssima, acho que todo mundo sabe disso”.
Desafios Operacionais e Carência de Recursos
A rotina de trabalho das unidades de dados é marcada por demandas que consomem tempo e recursos, dificultando o foco na atuação estratégica. O atendimento operacional (que atende a demandas pontuais quase o tempo todo) traz um certo custo para as unidades, e a gestão desses atendimentos pontuais toma bastante tempo.
A alta demanda por informações, como a produção de painéis e dashboards, esbarra na carência de pessoal suficiente para executar o trabalho. Sobre essa limitação de recursos humanos, Fátima (USP) declara: “A gente não tem braços, mas estamos tentando avançar nisso”. Além disso, desafios relacionados à infraestrutura envolvem a obtenção de recurso para ferramentas, sistemas e novas tecnologias. A dificuldade de infraestrutura se estende à capacitação e ao uso de tecnologias emergentes.
O Salto Estratégico: Da Informação à Política
Apesar de o uso de dados para a tomada de decisão estar se consolidando, o desafio mais elevado é garantir que essa informação se materialize em ações concretas. Um ponto crucial que precisa de avanço é fazer com que os indicadores gerados gerem massivamente políticas. Ainda não se tem visto resultados em políticas efetivas, por meio de resoluções ou portarias, mesmo a partir de recomendações nos boletins analíticos. A Fátima (USP) reconhece que: “nós não conseguimos ainda fazer com que os nossos indicadores gerem massivamente políticas”.
Uma hipótese levantada é que essa dificuldade em transformar informações em ações efetivas pode ocorrer devido à falta de mais diálogo entre o Escritório de Dados e as próprias Pró-Reitorias/Reitoria.
Estratégias de Mitigação e Perspectivas
Em contraponto a esses desafios, as instituições estão adotando estratégias:
• Colaboração e Comunidade: A união entre as universidades (como o G6) é vista como crucial, reforçando a necessidade de nos unir para procurar as soluções. A colaboração fortalece a atuação e demonstra que o complexo “não precisa ser complicado” quando feito em conjunto.
• Posicionamento Estratégico: A gestão incentiva que o escritório tenha uma visão estratégica (e não técnico-operacional), e sua localização estratégica (próxima à Coordenadoria Geral ou Reitoria) é fundamental para garantir o acesso à alta gestão e às pró-reitorias.
• Curadoria Constante: O atendimento operacional tem o benefício de garantir uma avaliação constante da qualidade do dado e a identificação de problemas em sistemas, que precisam ser ajustados para manter o banco de dados fidedigno.
• Criação de programas de diálogo internos às instituições: A criação relações com interlocutores nas diferentes áreas da universidade é uma metodologia que tem se mostrado interessante para superar barreiras culturais, sanar dúvidas e validar as informações com a comunidade, a exemplo da experiência trazida pela USP.
