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Cultura e governança de dados nas universidades

A mesa de debate organizada durante o II Encontro da Comunidade Métricas em setembro de 2025, tratou dos Desafios Comuns e Dificuldades enfrentados pelos Escritórios de Dados nas universidades, destacando que, apesar de as instituições estarem em diferentes graus de maturidade, os problemas são, em grande parte, comuns. Esses obstáculos abrangem barreiras culturais, operacionais, técnicas e legais, impulsionando a necessidade de estratégias de evolução das unidades.

Desafios Culturais e a Qualidade do Dado

O desafio mais frequentemente citado e considerado uma das maiores resistências é a consolidação da cultura do dado. Há uma dificuldade substancial em construir uma cultura da qualidade do dado e reconhecer a importância das informações contidas nos sistemas. É crucial que se estabeleça uma cultura de corresponsabilidade pelo que está sendo armazenado. Essa dificuldade manifesta-se até mesmo entre os responsáveis, pois, em alguns casos, mesmo quem é o “dono do dado” tem dúvida sobre a informação que consta ali.

Existe também uma carência de entendimento de que a análise de dados deve ser uma construção contínua. Há o risco de a demanda das áreas “esfriar” após a necessidade pontual ser atendida. Além de demonstrar a informação, é crucial que os usuários saibam entender corretamente o que está sendo passado. Mesmo com milhares de usuários acessando painéis, eles não necessariamente sabem como mexer, como analisar, como extrair a informação para a tomada de decisão.

Governança, Sistemas e Complexidade Legal

A estruturação técnica e normativa é um ponto crítico para garantir a confiabilidade dos dados. O principal desafio em muitas unidades é a governança de dados, que exige a estruturação de processos, procedimentos e políticas para a coleta, armazenamento, uso e compartilhamento dos dados.

Há uma dificuldade em avançar internamente no acesso aos dados, pois os sistemas corporativos não são preparados para fornecer dados que permitam a criação de indicadores. Isso exige negociações constantes e enfrenta questões políticas. A falta de interoperabilidade dos sistemas é outra dificuldade, já que alguns temas ainda não estão centralizados ou, quando estão, não são preenchidos por todas as pessoas. A qualificação e curadoria dos dados também são essenciais, atuando em diferentes níveis, como docente, secretarias de pós-graduação e pró-reitorias.

A gestão de dados é ainda afetada por questões legais, como a LGPD, que é vista como “complicadíssima”. O representante da USP, Fátima, destaca que: “Nossos sistemas corporativos não são preparados por fornecer dados para que a gente possa fazer indicadores”, e que lidar com a LGTB [LGPD] “é uma questão complicadíssima, acho que todo mundo sabe disso”.

Desafios Operacionais e Carência de Recursos

A rotina de trabalho das unidades de dados é marcada por demandas que consomem tempo e recursos, dificultando o foco na atuação estratégica. O atendimento operacional (que atende a demandas pontuais quase o tempo todo) traz um certo custo para as unidades, e a gestão desses atendimentos pontuais toma bastante tempo.

A alta demanda por informações, como a produção de painéis e dashboards, esbarra na carência de pessoal suficiente para executar o trabalho. Sobre essa limitação de recursos humanos, Fátima (USP) declara: “A gente não tem braços, mas estamos tentando avançar nisso”. Além disso, desafios relacionados à infraestrutura envolvem a obtenção de recurso para ferramentas, sistemas e novas tecnologias. A dificuldade de infraestrutura se estende à capacitação e ao uso de tecnologias emergentes.

O Salto Estratégico: Da Informação à Política

Apesar de o uso de dados para a tomada de decisão estar se consolidando, o desafio mais elevado é garantir que essa informação se materialize em ações concretas. Um ponto crucial que precisa de avanço é fazer com que os indicadores gerados gerem massivamente políticas. Ainda não se tem visto resultados em políticas efetivas, por meio de resoluções ou portarias, mesmo a partir de recomendações nos boletins analíticos. A Fátima (USP) reconhece que: “nós não conseguimos ainda fazer com que os nossos indicadores gerem massivamente políticas”.

Uma hipótese levantada é que essa dificuldade em transformar informações em ações efetivas pode ocorrer devido à falta de mais diálogo entre o Escritório de Dados e as próprias Pró-Reitorias/Reitoria.

Estratégias de Mitigação e Perspectivas

Em contraponto a esses desafios, as instituições estão adotando estratégias:

Colaboração e Comunidade: A união entre as universidades (como o G6) é vista como crucial, reforçando a necessidade de nos unir para procurar as soluções. A colaboração fortalece a atuação e demonstra que o complexo “não precisa ser complicado” quando feito em conjunto.

Posicionamento Estratégico: A gestão incentiva que o escritório tenha uma visão estratégica (e não técnico-operacional), e sua localização estratégica (próxima à Coordenadoria Geral ou Reitoria) é fundamental para garantir o acesso à alta gestão e às pró-reitorias.

Curadoria Constante: O atendimento operacional tem o benefício de garantir uma avaliação constante da qualidade do dado e a identificação de problemas em sistemas, que precisam ser ajustados para manter o banco de dados fidedigno.

Criação de programas de diálogo internos às instituições: A criação relações com interlocutores nas diferentes áreas da universidade é uma metodologia que tem se mostrado interessante para superar barreiras culturais, sanar dúvidas e validar as informações com a comunidade, a exemplo da experiência trazida pela USP.