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THE Interdisciplinary Science Rankings 2026

Esta análise do THE Interdisciplinary Science Rankings 2026 oferece às lideranças universitárias uma leitura crítica do desempenho das universidades públicas paulistas em pesquisa interdisciplinar, mostrando que o ranking privilegia formas mais formalizadas e bibliometricamente visíveis de interdisciplinaridade. O material discute limites metodológicos, forças institucionais e possibilidades de uso estratégico e responsável dos resultados.

Desempenho das universidades públicas do Estado de São Paulo. Download e referência para citação: https://doi.org/10.5281/zenodo.19473048

THE Interdisciplinary Science Rankings 2026
Projeto Métricas
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THE Interdisciplinary Science Rankings 2026

Desempenho das universidades públicas do Estado de São Paulo


O THE ISR 2026 capta sobretudo interdisciplinaridade formalizada e bibliometricamente visível — formas incorporadas, aplicadas e transdisciplinares permanecem sub-representadas.
Comparações com a edição 2025 requerem cautela: a ampliação da definição de ciência interdisciplinar para incluir áreas não-STEM altera estruturalmente os dados e os resultados.
O ranking ainda conta com participação limitada — Cambridge, Oxford e Harvard não participaram. Posições atuais no top 50 podem corresponder ao top 300 em poucos anos à medida que o ranking amadurece.
As lideranças universitárias devem tratar os resultados como insumo para reflexão estratégica, não como medida abrangente de desempenho interdisciplinar.
Contexto e Problema

O Interdisciplinary Science Rankings (ISR) 2026 do Times Higher Education (THE) é uma comparação global do desempenho das universidades em pesquisa científica interdisciplinar. O ranking concentra-se em observar como as universidades promovem e produzem pesquisa que se apoia em múltiplas disciplinas científicas para enfrentar desafios complexos.

O THE ISR oferece uma perspectiva útil, porém parcial, sobre como as universidades apoiam e realizam pesquisa interdisciplinar. Privilegia formas de interdisciplinaridade formalizadas, administrativamente visíveis e bibliometricamente legíveis. Mudanças de posição frequentemente refletem alinhamento com essas características metodológicas tanto quanto mudanças reais na atividade de pesquisa. Para líderes universitários, o ranking deve ser entendido como um insumo para reflexão estratégica, e não como uma medida abrangente do desempenho interdisciplinar.

Pontos fortes

O ranking combina insumos, práticas institucionais e resultados em um único quadro analítico, indo além de métricas puramente bibliométricas. Reconhece instituições que investem estrategicamente em pesquisa interdisciplinar e criam mecanismos formais de colaboração.

Limitações

Indicadores de Input têm defasagem de um ano; processos dependem de autodeclaração (risco de viés de relato); o componente de reputação pode favorecer maior visibilidade internacional independentemente da qualidade substantiva. Pesquisa aplicada, clínica e transdisciplinar permanece sub-representada.

Evidências e Análise

Participação das universidades públicas do Estado de São Paulo

Da mesma forma que o ranking Times Higher Impact era pequeno de início — pois muitas universidades não submetiam dados por preocupação com exposição institucional —, esta edição também apresenta participação limitada. Cambridge, Oxford e Harvard, por exemplo, não participaram. Isso significa que, caso o ranking se consolide, é provável que essas instituições passem a submeter dados no futuro, tornando as posições voláteis: aquilo que hoje mantém uma universidade no top 50 pode ser suficiente apenas para o top 300 em poucos anos. As universidades devem ser cautelosas ao celebrar excessivamente seus resultados nos primeiros anos de um ranking.

USP

O expressivo aumento da Universidade de São Paulo (USP) no pilar Processes está associado principalmente à criação, a partir de 2023, de Centros de Estudos com orientação transdisciplinar, que fortaleceram os mecanismos institucionais de colaboração, governança e coordenação da pesquisa. O aumento de investimento nesses centros também contribuiu para a elevação em Inputs. Como essas estruturas ainda são recentes, não houve crescimento proporcional imediato nas publicações; ainda assim, Outputs já era o indicador mais forte da USP, em parte devido ao peso da reputação acadêmica, na qual a universidade tradicionalmente se destaca.

A melhoria geral reflete a consolidação e visibilidade de grandes centros formais de pesquisa interdisciplinar, como o IEE e o IEA, além dos CEPIDs financiados pela FAPESP — especialmente o NeuroMat —, que impulsionam publicações de alto impacto em múltiplos campos. A pontuação sólida em Inputs também decorre da escala e maturidade de iniciativas como o Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e plataformas em energia, clima e saúde.

Unifesp

A Unifesp foi a instituição que mais se beneficiou da definição ampliada de ciências interdisciplinares no ranking, que passou a atribuir maior peso a áreas médicas e de ciências sociais. Como grande parte da sua produção interdisciplinar já se concentrava nesses campos, a universidade teve um aumento significativo de visibilidade, especialmente por meio de centros como o IEAC, o CEPID ARIES e iniciativas como o Quereres. No entanto, essa concentração em áreas biomédicas — já altamente visíveis em bases bibliométricas — pode inflar o desempenho relativo da Unifesp em comparação com formas mais diversas de interdisciplinaridade.

Os maiores ganhos aparecem no pilar Outputs, com forte presença de publicações interdisciplinares — especialmente na interface entre saúde, meio ambiente e ciências sociais aplicadas. O desempenho reflete sobretudo uma interdisciplinaridade mensurável por métricas bibliométricas; impactos relacionados à prática clínica, políticas públicas e engajamento social permanecem sub-representados.

UFABC

O modelo de pesquisa da Universidade Federal do ABC (UFABC) é estruturalmente orientado à interdisciplinaridade, com organização não departamental, centros interdisciplinares (CCNH, CECS e CMCC) e núcleos que integram ciências naturais, engenharia, computação e ciências sociais. Esse desenho institucional se alinha diretamente ao pilar Inputs do ranking. No entanto, muitas iniciativas-chave da UFABC operam em lógica transdisciplinar — como o CEFAVELA e o CIRUE, ambos apoiados pela FAPESP —, articulando academia, governo e sociedade em torno de problemas aplicados, o que se encaixa menos nos indicadores de Processes do THE.

Atividades transdisciplinares só são plenamente reconhecidas quando resultam em produtos acadêmicos indexados, o que limita a visibilidade de contribuições ligadas a políticas públicas, engajamento comunitário e impacto social aplicado. O caso da UFABC evidencia um desalinhamento entre práticas contemporâneas de coprodução de conhecimento e as métricas utilizadas por rankings globais.

Unesp

O ecossistema de pesquisa interdisciplinar da Universidade Estadual Paulista (Unesp) é sustentado por uma rede diversa de centros e iniciativas que articulam diferentes áreas e desafios sociais — incluindo o CPPS, que integra história, direito, ciência política e políticas públicas, e os Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs) da FAPESP, voltados a tecnologia assistiva, habitação e saúde. A organização multicampi e infraestruturas como o CLaCE favorecem interações visíveis entre áreas, mas a estrutura descentralizada pode limitar a legibilidade aos indicadores padronizados, especialmente em Processes.

No pilar Outputs, a Unesp apresenta boa visibilidade em química sustentável, ciência dos materiais, saúde pública, ecologia e políticas sociais, apoiada por redes como o LIEC. Como o ranking privilegia volume de publicações e impacto de citações, pode sub-representar trabalhos integrativos ou socialmente engajados que não se encaixam facilmente em categorias indexadas.

Síntese comparativa

Nas principais universidades públicas de São Paulo, o desempenho no THE ISR reflete não apenas a qualidade da pesquisa, mas também a visibilidade e institucionalização da interdisciplinaridade. A USP se destaca pela escala e maturidade de seus centros formais. A Unesp demonstra um perfil interdisciplinar amplo e socialmente engajado, mas sua estrutura descentralizada o torna menos legível ao ranking. Unifesp e UFABC apresentam fortes competências em interdisciplinaridade orientada a problemas, mas dependem mais de prática acadêmica integrada do que de grandes centros de pesquisa com marca institucional forte. Em conjunto, o ranking capta sobretudo onde a interdisciplinaridade é formalizada, escalada e bibliometricamente visível.

Recomendações
1. Esclarecer a intenção estratégica ao se engajar com o ranking

Melhorar o desempenho no THE ISR exige escolhas deliberadas sobre estrutura, incentivos e relato de dados. Para algumas instituições, repensar a forma como os dados são apresentados deve ser prioridade, especialmente quando estruturas formais já existem, mas não estão sendo suficientemente reconhecidas pelo ranking. As lideranças devem ser claras quanto aos aspectos da interdisciplinaridade que desejam fortalecer e quanto ao papel secundário — ou não — da melhoria de posição no ranking.

2. Apoiar a visibilidade bibliométrica, reconhecendo outputs mais amplos

Dado o peso elevado do índice Outputs, as universidades se beneficiam ao apoiar equipes interdisciplinares na publicação em periódicos bem-indexados e na coordenação de estratégias de publicação entre disciplinas. Ao mesmo tempo, as lideranças devem reconhecer que pesquisa aplicada, clínica e orientada a políticas públicas pode gerar impacto por canais não plenamente capturados pelo ranking, e garantir que essas atividades permaneçam sendo valorizadas institucionalmente.

3. Fortalecer o apoio institucional sem restringir a diversidade

Centros interdisciplinares formais, infraestrutura compartilhada e suporte administrativo dedicado podem melhorar a visibilidade nos pilares Inputs e Processes. No entanto, esses investimentos devem complementar — e não substituir — colaborações descentralizadas e bottom-up, que frequentemente geram inovação, mas são menos imediatamente legíveis a estruturas de ranking.

4. Interpretar resultados com cautela e comunicá-los com responsabilidade

Mudanças anuais podem ser influenciadas por atualizações metodológicas, participação ampliada e melhorias em autodeclaração institucional — e não necessariamente por mudanças substantivas de desempenho. As universidades devem evitar exagerar na interpretação de pequenas mudanças de posição e enquadrar os resultados em uma narrativa mais ampla de desenvolvimento institucional.

O THE Interdisciplinary Science Ranking oferece uma perspectiva do quanto as universidades formalizam e ampliam a pesquisa interdisciplinar de maneiras reconhecíveis dentro de métricas globais. Utilizado com cuidado, ele pode evidenciar forças, lacunas e oportunidades de aprendizado institucional. Seu maior valor não está em alcançar posições exatas no ranking, mas em estimular as universidades a refletirem sobre como a pesquisa interdisciplinar é apoiada, organizada e comunicada — permanecendo atentas às formas de trabalho interdisciplinar e transdisciplinar que estão além do campo de visão atual do ranking.

Este documento foi produzido pelo Projeto Métricas (metricas.edu) como insumo para lideranças universitárias e gestores de ciência e tecnologia no Estado de São Paulo. As análises não representam posição oficial das universidades mencionadas.
Referências

Componentes e pesos do ranking

O ISR 2026 divide seus indicadores em três categorias: Inputs (condições institucionais), Processes (práticas organizacionais — únicos componentes autodeclarados) e Outputs (resultados de pesquisa, com maior peso relativo). A pontuação segue Função de Distribuição Acumulada Normal para a maioria das métricas, com remoção de outliers de 2,5% nas extremidades. Indicadores de processo são pontuados de 0–3 e escalados para 0–100.

Fontes de dados

Dados institucionais: autodeclarados via portal do THE; ano de 2023 ou o mais recente disponível.

Bibliometria: base Elsevier Scopus, publicações de 2019–2023, citações contabilizadas até 2024.

Pesquisa de reputação: realizada em 2024 com pesquisadores ativos no mundo todo; respostas ponderadas por país, excluídas as autoavaliações.

Critérios de elegibilidade

Submeter dados para o THE World University Rankings 2025.

Declarar pelo menos uma das quatro áreas científicas principais.

Publicar ≥ 100 artigos de pesquisa interdisciplinar em ciência entre 2019–2023.

Empregar ≥ 50 docentes/pesquisadores em áreas científicas relevantes.

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